quinta-feira, 19 de abril de 2018

Campeões mimados

Há algo que mudou e não sei explicar. Não entrámos mal no jogo, mas aos dez minutos o Porto controlava. Jogava-se no nosso meio-campo e não nos parecia possível chegar à frente para criar perigo. O Porto trocava a bola como queria e, quando a perdia, pressionava de imediato os nossos jogadores até a recuperar. Parecia uma repetição dos filmes dos jogos contra o Porto que assistimos esta época. Só que a contundência não era a mesma e parecia que a forma como decorria o jogo era mais permitida do que conquistada. Não sei se é assim ou se, como os jogadores, também começo a acreditar no Jorge Jesus e na sua ideia de jogo ou lá o que é.

Na segunda parte, o jogo começou mais repartido. Começava a perceber-se que alguma coisa estava a mudar e algo se preparava para acontecer. A saída do Piccini e a entrada do Ristovski assinalaram definitivamente o “turnover”. Na lateral direita entrou um ciclista que nunca mais parou e que deixou a cabeça do Brahimi em água e sem possibilidades de se chegar à frente e criar perigo. Quando entrou o Montero e recuou o Bruno Fernandes, o cerco ficou definitivamente montado. O Battaglia ficou sozinho a marcar os três jogadores do meio-campo e o Coates um dos Abomináveis Homens das Neves que o Sérgio Conceição costuma colocar no ataque (foi o Soares primeiro e o Aboubakar depois).

Finalmente, os jogadores tinham ordens para atacar a toda a sela. O Ristovski fez mais uma corrida endiabrada pelo lado direito e o Marcano cortou em desespero para canto. O Bruno Fernandes marcou-o como de costume para a molhada que se concentra na zona de “penalty”, onde estavam os dois monstros do jogo de hoje: Battaglia e Coates. A bola respingou para a frente e o Marcano, em pânico, tentou cortar com o pé que estava mais à mão, enfiando uma rosca na bola que veio direitinha para o Coates fuzilar para o lado direito, contrariando as indicações do “Bardo” (de) Carvalho.

O Jorge Sousa reagiu de imediato. O Battaglia recuperou uma bola e quando se preparava para cavalgar para a área foi inventada uma falta. Logo a seguir, o Herrera entra de pé-em-riste sobre o Gelson Martins e recupera a bola sem que lhe fosse marcada falta. O Porto empurrado reagiu como pôde, estando perto de marcar num cabeceamento na sequência de um canto que foi à trave. O Jorge Jesus mandou acalmar as tropas e preparou o prolongamento.

O prolongamento continuou a ser todo do Sporting, especialmente na primeira parte. Esperava-se o golo a qualquer momento. O Gelson Martins isolado do lado direito esqueceu-se do que aprendeu com o Bas Dost no jogo contra o Belenenses e voltou a fechar os olhos e a rematar de qualquer maneira e sem direção. O Montero procurou dominar uma bola na pequena área quando o mais fácil seria rematar de primeira. O Bruno Fernandes fez uma revienga no lado direito, entortou um defesa, atrapalhou-se com ele e com a bola e acabou por fazer um passe ao Casillas. O Jorge Sousa continuava a ajudar o Porto a respirar e a queimar tempo. Foi comovente a atenção dispensada ao Maxi Pereira, permitindo que lhe fosse estancada uma ferida no couro cabeludo em pleno relvado e evitando que o Porto jogasse alguns minutos com dez. As forças foram-se esvaindo até se chegar aos “penalties”.

Nos “penalties” fomos competentes mesmo por quem menos ser esperava. Esperava-se essa competência do Bruno Fernandes, do Bryan Ruiz e do Mathieu. Quando o Coates se dirigiu para a marca de “penalty” e ajeitou a bola, o coração tremeu. Mas desde que falhou uma vez nunca mais hesitou: voltou a apontar a um canto e a disparar sem hipóteses de defesa. Faltava o enigmático e imprevisível Montero. Quando se olha para o rosto nunca se percebe se está à rasca ou confiante. Quando parte para a bola espera-se tudo: um disparate qualquer ou a frieza de um veterano. A bola entrou e as mãos desataram-me a tremer e só pararam passado duas horas para fazer este escrito.

Quando o Jorge Jesus falou do “joguinho” do fim-de-semana passada do Porto não quis desvalorizar o adversário e o resultado contra o Benfica. O que quis dizer ao Sérgio Conceição é que se preparasse para um jogo a sério, contra uma equipa a sério, num estádio a sério com adeptos e claques a sério. Num país a sério e num campeonato sério estas seriam as duas únicas equipas a disputar o título. São as melhores a léguas de distância de todas as outras. Os campeões, os verdadeiros campeões veem-se nestes jogos em que as equipas se olham nos olhos e ganha quem tem mais coração. Hoje fomos campeões.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Manter amarrado e amordaçado o nosso Assurancetourix do Facebook

“O que hoje é verdade amanhã é mentira e vice-versa”. Esta frase de Pimenta Machado, ex-Presidente do Vitória de Guimarães, está para o futebol português como o “cogito, ergo sum” de Descartes para a filosofia. O Rui Vitória passou de um azougado piloto de Ferraris para um acagaçado incapaz de conduzir uma caranguejola. O Jorge Jesus passou de um egomaníaco para um líder da sua equipa e principal defensor dos seus jogadores. A pressão passou de um lado da segunda circular para o outro em menos de um fósforo.

A participação do Sporting e do Benfica na Liga dos Campeões é crítica. O “derby” dos “derbies” deverá decidir essa participação. Sem ela vem a crise e a instabilidade. É obrigatório ganhar esse “derby”, nem que seja preciso morrer em campo. Ninguém perdoará aos jogadores e ao Jorge Jesus outro resultado. Até lá, é preciso ganhar os dois jogos que faltam e, como se tem visto, isso não é nada fácil; isso e manter amarrado e amordaçado o nosso Assurancetourix do Facebook, dispensando-se também a continuação do desfile da brigada do reumático do costume pelas televisões.

(Fotografia encontrada aqui)

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Um jogo do Var(alho) na SporTv

Entrámos a dormir. Foi assim que nos encontraram os jogadores do Belenenses na primeira vez que atacaram. O Rui Patrício acordou sobressaltado mas ainda a tempo de fazer a primeira defesa. A bola fez um balão e a falta de jeito de um jogador do Belenenses só lhe permitiu enfiar uma carecada que o Coates limpou com facilidade. Entretanto, o Rui Patrício tinha procurado recuperar a bola, tendo dado um encontrão no avançado depois da (dita) carecada. O Rui Pedro Rocha da SporTV viu tudo, inclusivamente uma chapada, e exultou quando o vídeo-árbitro e o árbitro lhe deram razão.

Não sei se pelo golo, pelo árbitro, pelo vídeo-árbitro ou pelo histérico Rui Pedro Rocha, acordámos. O Bryan Ruiz se não estava acordado, acordou quando ganhou um segundo ressalto com a cara, permitindo ao Bruno Fernandes um passe extraordinário de trinta metros que isolou o Bas Dost para marcar um “penalty” em corrida, uma das suas especialidades. Completamente desperto, o Bryan Ruiz marcou rapidamente uma falta, passando-a para o inevitável Bruno Fernandes que fez o mesmo que tinha feito no golo anterior, permitindo ao Gelson Martins fazer o mesmo que o Bas Dost, depois de ter visto como se fazia. Em dez minutos, fizemos a remontada que não tínhamos conseguido contra o Atlético de Madrid durante o jogo todo. A acabar a primeira parte, o Ristovski fez tabelar a bola no cocuruto da cabeça de um defesa do Belenenses para isolar o Acuña que, com o pé que tinha mais à mão, rematou à meia volta para fazer o terceiro golo. O Rui Pedro Rocha voltou a ver tudo e ficou imensamente frustrado por o árbitro e o vídeo-árbitro não lhe terem dado razão desta vez, lamentando-se o resto do jogo como um disco riscado.

Entrámos na segunda parte para controlar o ritmo de jogo, como se costuma dizer em linguagem técnica quando se pretende adormecer o adversário. Como sempre nos acontece, não o adormecemos e acabámos por nos adormecermos. O lateral esquerdo do Belenenses encontrou literalmente a dormir o Ristovski e o Coates, permitindo-lhe entrar na área à vontade e passar a bola para um seu colega fuzilar o Rui Patrício. O jogo estava em aberto, dizia o Rui Pedro Rocha. A nossa defesa fez-lhe a vontade e não se limitou a abrir-se, resolvendo escancarar-se numa biqueirada para as suas costas pela enésima vez, acabando o Acuña por fazer “penalty”. O Rui Pedro Rocha viu tudo e voltou a exultar quando o árbitro e o vídeo-árbitro lhe deram razão. O jogador do Belenenses foi marcá-lo com cara de quem ia para o cadafalso, mas acabou em desespero por conseguir bater o Rui Patrício.

O jogo voltava ao princípio e no princípio era o verbo (apitar). Na sequência de um canto, o Yebda tentou com o cotovelo arrancar os queixos do Bas Dost. Só após o comentador ter sido conclusivo na análise do lance, o Rui Pedro Rocha a contragosto acabou por ver também e não exultou quando o árbitro e o vídeo-árbitro lhe deram razão. O Bruno Paixão não deixou que o Bas Dost marcasse o “penalty” depois de receber assistência médica. É verdade que o Jonas não joga há dois jogos, mas parece excesso de zelo. O Bruno Fernandes aproveitou para molhar a sopa com a paradinha do costume. Logo a seguir, o Bas Dost foi agarrado na área na sequência de outro canto e o Rui Pedro Rocha não viu grande coisa e o árbitro e o vídeo-árbitro também não. Ainda marcámos o quinto golo, mas o Rui Pedro Rocha viu o fora-de-jogo e exultou mais uma vez quando não só lhe deram razão o árbitro e o vídeo-árbitro como o bandeirinha. Entretanto, o Jorge Jesus resolveu meter trancas-à-porta com a entrada do Lumor e do Petrovic, sofrendo-se a bom sofrer até ao último minuto.

Acabado o jogo, o Rui Pedro Rocha continuou desolado por o árbitro e o vídeo-árbitro não lhe terem dado razão no terceiro golo do Sporting. Depois de termos visto durante o jogo trezentas e quatro vezes a repetição do lance desse golo, voltámos a vê-lo, sem que uma palavra ou imagem lembrasse o quarto “penalty” que ficou por assinalar. O vídeo-árbitro ajuda os árbitros, mas o Rui Pedro Rocha ajuda mais, situação que merece reflexão pelos entendidos destas coisas. Espera-se que o Bruno de Carvalho aproveite o Facebook, o WhatsApp ou o Twiter para o mandar para o Var(alho), poupando-nos e aos jogadores desta vez.

domingo, 15 de abril de 2018

Varalho

(estou a escrever no intervalo para não atrapalhar depois)

Varalho é um termo que inventei hoje. 
É uma interjeição futebolística de grande utilidade e fácil de utilizar, por exemplo «este árbitro é um grande varalho!» ou, mais nortenha, «ide para o varalho». 
Julgo ser importante aumentar o nosso léxico e actualizá-lo face às novas tecnologias. 
Bom resto de jogo...meus varalhos! (desculpem, não resisti)

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Joguei com eles noventa minutos

Ajudei o Coates a meter o Diego Costa no bolso. Estive em todo o lado com o Battaglia, engolindo o meio-campo. Acelerei vezes sem conta com o Ristovski, esperando receber a bola embalado quando o jogo virasse de flanco. Mantive nervos de aços é pés de veludo com o Petrovic. Vim dentro, fui para fora, recuei para ajudar o Ristovski, estiquei o jogo com o Gelson Martins. Disse ao ouvido do André Pinto para nada recear que este era o jogo dele. Fechei a sete-chaves o lado esquerdo e subi, subi sempre pelo flanco com o Acuña. Ajudei o Bruno Fernandes a ver onde estavam as oportunidades. Fiz a mancha uma e outra vez aos pés do Griezman com o Rui Patrício. Estiquei-me todo com o Montero para meter a bola dentro da baliza. Saí do campo por momentos para gritar com o Jorge Jesus para o Coates avançar. Voltei para dentro para tentar ajudar o Doumbia a dominar a última bola que ressaltou na área.

Soou o apito final do árbitro. Caí para o lado, exausto e com a sensação que Mundo tinha acabado e que não tinha feito tudo para o salvar. A boca ainda me sabia a sangue. Olhei em volta, todos se levantavam para fazer o “haka viking” com os adeptos. De repente fiquei baralhado, não sabia se estava dentro ou fora de campo. Parecia estar fora, mas era capaz de jurar que estive dentro durante noventa minutos.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Revista à portuguesa


Toda a gente sabe que a cultura europeia tem uma origem greco-latina, a cujo berço, a Grécia, somos todos devedores. Recentemente, o presidente de um clube grego (PAOK de Salónica) interrompeu um jogo (no seu estádio) armado de fusca, ameaçando a equipa de arbitragem, clamando por justiça. Na capital, Atenas, mais concretamente no Pireu, mora o eterno campeão Olimpiakos. O seu presidente, descontente com os resultados da equipa (terceiro a nove pontos do AEK), decidiu multar o plantel em 400.000 Euros, enviando-o de férias antecipadas. A equipa jogará o resto da temporada com os putos. Ali perto, na sede do Panathinaikos, optou-se por uma solução menos original: os jogadores encontram-se de greve por (supostamente) não receberem quaisquer honorários desde Outubro de 2017. Poderíamos continuar com outros bons exemplos de gestão futeboleira, na Itália, por exemplo, ou na Roménia, ou até na Bulgária, mas aqui já estaríamos (embora não totalmente) a afastarmo-nos da matriz greco-latina
.
São laços invisíveis os que nos unem a estes (e outros países), embora no nosso caso, a matriz dos (supostamente) brandos costumes, nos obrigue a um certo jogo de cintura, de aparências, de conluios, sacos com cores e outras criatividades (não apenas as contabilísticas). Não basta (nem interessa) ser mas parecer a mulher de César. Assim sendo, não percebendo (nem desculpando) a desmesura e o despropósito de certos comportamentos (e atitudes) do presidente do Sporting, também não percebo a indignação e o clamor de alguns (falsos) moralistas, sem memória recente e passada. As equipas de Hóquei e Andebol foram igualmente “atacadas” e, não só lideram os respectivos campeonatos, como não reagiram como coitadinhos ou vítimas. E, mais importante, pouco se falou do assunto. 

Mas existem coisas que nem eu, com a minha vaga ideia do que se passa (vejam só), consigo entender. Desde logo, nunca consegui perceber como se lidera (qualquer coisa) com farpas nas redes sociais. Não existem sítios adequados em Alvalade para dar umas farpas? Pois, construam-se alguns, como se fez (e bem com o pavilhão). Para quê agendar assembleias gerais (no início do ano) e plebiscitos logo a seguir? Ainda por cima com a equipa nos primeiros lugares e o processo e-toupeira (já para não falar dos emails) na berra. Qual terá sido a intenção: desviar atenções da crise do Benfica? Semear a discórdia em vésperas de jogos importantes (na altura ainda íamos ao Porto, por exemplo)? Pois olhem que parece isso mesmo
.
Posteriormente, numa altura em que a equipa (e o clube) precisa(va) de se concentrar nas competições que restam, após uma derrota do Porto com o Belenenses (que logo ficou esquecida), após um jogo (fraco) com o Atlético de Madrid (equipa que foi empatar a seguir com o Real Madrid e está 4 pontos à sua frente), com investigações e processos ao rival do lado, qual será afinal a intenção de tudo isto? Haverá alguma? Temo que, desta vez, a estratégia não seja possível de descortinar nem nos nossos devaneios mais irónicos.

Enquanto os nossos adversários se deliciam com esta revista à portuguesa, alguns dos roedores habituais já começaram a abandonar o navio, ou a mudar de embarcação. Nada de novo. Cheira-me que em vez de a caminho de um pacemaker caminhámos para uma cova. E bem funda. Não há palco como este, pois não?

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Tão grandes que somos os maiores

Hoje, no trabalho, tive duas conversas muito interessantes com um portista e com um benfiquista.

O portista queixava-se do “penalty” inventado a favor do Benfica e do jogador que tinha efetuado a (suposta) falta, aparentemente ainda tem os salários pagos pelo Benfica apesar de ser jogador do Setúbal. Queixava-se deste roubo, mas queixava-se sobretudo de ninguém falar dele e do clássico do próximo fim-de-semana. Disse-lhe que quando o tema é o Sporting não há espaço para mais nenhum clube. Os “media” só noticiam o que é importante e se não noticiam é por que não é importante. Também me espantava como é que sempre nos quiseram ganhar fora das quatro linhas, para acabarem a queixar-se de ganharmos o campeonato que se joga fora das quatro linhas e que é o campeonato preferido dos portugueses.

O benfiquista procurou compreender o meu estado de espírito recorrendo à sua experiência. Disse-me que também sofreram com as vigarices do Vale e Azevedo, o alegado alcoolismo do Jorge de Brito e do Manuel Vilarinho e a capela da mulher do Manuel Damásio. Só depois de passarem por estas agruras é que, finalmente, tinham alguém a fazer um bom trabalho. Disse-lhe que não era trabalho, era trabalhinho. O trabalhinho até já tinha dado tantos nomes de código à Polícia Judiciária como os que recorreu o George Smiley em toda a sua vida (para quem não leu, recomenda-se “A Toupeira” de John le Carré). No Sporting não esperamos que a justiça condene (ou não) o trabalhinho, bastam uns “posts” mal-amanhados no Facebook e são postos a andar.

A teoria do caos e a vitória contra o Paços de Ferreira

Há fenómenos difíceis de explicar e por isso é que são fenómenos, pelo menos num primeiro momento. Por exemplo, é difícil compreender como é que um simples bater de asas de uma borboleta no Japão pode originar um tufão nos Estado Unidos. Mas até o caos tem uma teoria que o explica, transformando-o em algo que se pode entender, desde que se conheça o início e o fim de tudo. No início foi o Facebook; no fim a vitória por dois a a zero contra o Paços de Ferreira. Sabendo isto, a sucessão de acontecimentos obedece a uma ordem, a uma teoria, que não determina o caos mas que o explica.

O Coates não se desconcentrou e o Mathieu também não. O Coentrão não jogou para não levar amarelo. O Bas Dost jogou mas não fez falta nenhuma, embora se não tivesse aparecido no primeiro golo tivéssemos sentido a sua falta. O Gelson não entortou o corpo e nem sequer rematou, com medo de rematar para a direita. O Bryan Ruiz só rematou uma vez e fuzilou de imediato para a esquerda. Nos minutos finais, apesar de estarmos a jogar contra dez e contra um guarda-redes improvisado, não atacámos para o Montero não falhar nenhum golo de baliza aberta. Mancomunado com outros jogadores e os adeptos, o Rui Patrício bloqueou todos os remates e cruzamentos do Paços de Ferreira, manipulando a equipa no seu conjunto. Por uma vez, o Jorge Jesus não falou só dele e defendeu igualmente os seus jogadores.

Assobios? O mais possível. Meninos mimados? Sempre que necessário? Insultos? Insultos é que não. É necessário voltar de imediato ao Facebook. Só com nova teoria do caos somos capazes de passar a eliminatória contra o Atlético de Madrid na próxima quinta-feira e não há tempo a perder se pretendermos que os acontecimentos se sucedam de forma adequada a esse resultado.

sábado, 7 de abril de 2018

Eu é que sou o Presidente (da Junta)*

O futebol é o assunto mais sério de todos os assunto não sérios. Não sei quem disse isto ou se alguma vez alguém o disse. Se disse, concordo, se não disse, fica dito. Este “blogue” é, assim, escrito para tratar de forma não séria o assunto mais sério de todos os não sérios. Para tratar de forma séria os assuntos sérios, basta-nos a nossa vida pessoal e profissional.

Neste "blogue", raramente se falou do presidente, deste ou de outros. O futebol vive do momento, do presente, enquanto a direção de uma instituição vive do futuro, que quando se tornar presente será avaliada pelo passado. Se este Presidente for bom ou mau, o futuro, quando passar a passado e presente, o dirá. Hoje, consideramos que foi um ato de justiça atribuir o nome de João Rocha ao novo pavilhão. É o reconhecimento pelos sportinguistas pelo trabalho desse presidente pelo que fez em benefício do clube e dos seus associados. É a avaliação no futuro daquilo que foi presente e se transformou em passado.

Este presidente não começou mal. Manteve nervos de aço em todo o processo de reestruturação financeira e nos casos Bruma e Ilori. Estava toda a gente à espera que borregasse e se espalhasse ao comprido nesses primeiros tempos. Gerou uma onda de entusiamo nos adeptos e criou uma agenda mediática centrada na bandalheira em que se transformou o futebol português. O foco da comunicação encontrava-se fora da equipa e dos jogadores, procurando criar condições para que pudessem jogar de igual para igual com os seus adversários dentro de campo. Bastava ler uma célebre entrevista do Rui Jorge para se perceber como os jogadores do Sporting se sentiam por não os deixarem bater-se com as mesmas armas dos adversários.

Nunca apreciei muito o estilo. Há excessos de linguagem que são desnecessários e que não qualificam quem os profere, mas compreendi-os. Os terramotos são medidos na Escala de Richter, que vai até à magnitude 10. Depois dessa magnitude, não se sabe como avaliar. No futebol português, essa magnitude tinha sido ultrapassada há muito, muito antes de chegar este presidente. Sendo assim, nunca percebi como é que os comentadores e a opinião pública ordenavam a magnitude do Pinto da Costa, do Luís Filipe Vieira e do Bruno de Carvalho. Estavam todos para além da Escala de Richter do futebol. Se era preciso uma magnitude igual ou superior à dos outros clubes para se jogar de igual para igual, então que viesse o correspondente terramoto.

Começaram, entretanto, a surgir sinais de alguma patologia no comportamento deste presidente. Nunca os valorizei muito, dado que se trata de assuntos a que não ligo importância e aos quais estou muito pouco atento. Aparentemente, havia sinais de alarme, como a última Assembleia Geral. Na última quinta-feira, depois do jogo contra o Atlético de Madrid, deu-se um passo em frente do qual não é possível voltar atrás. Não há inocentes, neste tipo de embrulhadas, nunca os há. Mas as responsabilidades não são comparáveis.

Quando se chega ao ponto a que se chegou, não se pode falar de forma não séria do assunto mais sério dos não sérios. É preciso falar de forma séria de um assunto sério, que está para além do futebol. As pessoas definem-se de muita formas mas a mais relevantes, neste tipo de sociedade em que se vive, é pelo que fazem como profissionais. Temos nomes, mas somos sobretudo agricultores, informáticos, professores, engenheiros ou jogadores de futebol. Não há maior desqualificação de uma pessoa quando se a desqualifica pelo que faz como profissional, como trabalhador. O Coates, o Mathieu, o Coentrão, o Gelson Martins e o Bas Dost são grandes jogadores de futebol. Chegaram longe nas suas equipas e seleções pelo seu mérito e pelo seu trabalho.

Uma organização onde, de forma gratuita, se desqualificam os seus trabalhadores pelo que fazem enquanto profissionais, não tem futuro. O presidente de uma organização que o faça ou a organização não tem futuro, se se aceitar que o possa fazer, ou então não tem futuro na organização. Por mim, a porta é a serventia da casa: rua!

Aborrecem-me ainda duas coisas.

Que o Jorge Jesus acabe por passar incólume entre os pingos da chuva. Como se viu, sem colinho, dos árbitros e do seu conselho de arbitragem, dos jornalistas ou dos cometdaores, é igual aos outros se não pior. Este enredo permite-lhe arranjar as desculpas mais adequadas para ressuscitar noutro clube qualquer, como se a culpa fosse toda do Bruno de Carvalho e ele continuasse a ser o génio da tática.

Que, com este imbróglio, ninguém mais se recorde das vigarices do futebol português, dos emails, aos “vouchers”, convites e toupeiras. Se houvesse vergonha neste país, este campeonato nem se teria iniciado, como o disse aqui e aqui. O Bruno de Carvalho prestou um mau serviço ao Sporting e ao futebol português, ou, pelo menos, a quem pensa que o futebol deve ser jogado dentro das quatro linhas dependendo exclusivamente os resultados dos jogadores, individual e coletivamente.

(*) Designação de um antigo e memorável "sketch" humorístico do Herman José.

In hoc signo vinces

Primeiro Sporting, depois Sporting e finalmente Sporting. Incondicionalmente com a equipa por uma equipa incondicionalmente Sporting. Depois acertamos as contas.

Muro das lamentações



«Nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.»
Friedrich Nietzche

sexta-feira, 6 de abril de 2018

É só fumaça!

Depois do jogo de Braga, o Presidente disse que estava na altura de baixar a cabeça. Os jogadores quiseram-lhe fazer a vontade. Mal começou o jogo, o Coates estava de cabeça tão baixa que nem viu o Diego Costa e passou-lhe a bola. O Diego Costa ainda começou por se atrapalhar com ela mas lá a conseguiu passar ao Koke que, na cara do Rui Patrício, não falhou. Logo a seguir, na sequência de um canto, o Rui Patrício salvou o segundo golo com grande defesa.

Não é nada fácil jogar com a cabeça baixa. Só o Gelson Martins o consegue fazer com algum jeito, mas precisa de alguém com a cabeça levantada para marcar golo. O William Carvalho não sabe e não quer jogar de cabeça baixa e, portanto, começou a levantá-la. Quando fez dois “cabritos” seguidos a dois jogadores do Atlético de Madrid, sendo o segundo com a coxa, pensei que todos iriam levantar a cabeça. Levantaram um pouco a cabeça, mas não levantaram cabelo. Até que o Mathieu de tanto estar com a cabeça baixa, tropeçou na bola e isolou o Griezmann, que acelerou para a área e na cara do Rui Patrício marcou o segundo.

Como o William Carvalho se lesionou e teve de ser substituído ao intervalo, deixámos de ter alguém com a cabeça levantada e que ajudasse os colegas a levantar as suas (deles) cabeças. Foi um autêntico arraso. Nem chegávamos à área do Atlético de Madrid, enquanto o Rui Patrício ia safando tudo e mais um par de botas. Quando menos se esperava, o Montero falhou um golo de baliza aberta para que se cumprisse o destino do Sporting: ser eliminado das competições europeias depois de falhar ou sofrer um golo no último minuto e ficarmos com a sensação que tivemos azar.

Para o Jorge Jesus a diferença entre as duas equipas esteve nos erros que deram origem aos dois golos. Com estas duas exceções, teremos jogado ao mesmo nível do adversário. Espero nunca ver um jogo em que estejamos abaixo do nível do adversário. Em 2010, com o Carlos Carvalhal, empatámos com o Atlético de Madrid a zero, acabando a jogar com nove jogadores e jogando com dez mais de uma hora. A equipa tinha esta constituição: Patrício, Abel, Tonel, Polga, Grimi, Pedro Mendes, Miguel Veloso, Pereirinha, Moutinho, Izmailov e Liedson. Nessa altura, tínhamos a mania que a culpa era sempre do treinador.

(O Presidente voltou a escrever no Facebook e disse umas coisas em direto para CMTV. Há qualquer coisa de Pinheiro de Azevedo nestes comportamentos. Mas mesmo o Pinheiro de Azevedo mandava serenar o povo quando só via fumaça)

segunda-feira, 2 de abril de 2018

A camisola

Ontem, Domingo de Páscoa, ofereci uma camisola do Sporting ao meu sobrinho, que tem seis anos. Vestiu-a de imediato e foi jogar à bola. Mal fez dois remates, disse-me logo: “Tio, com esta camisola jogo muito melhor!” De facto, com aquela camisola joga-se melhor. Os melhores de Portugal jogaram com ela.

É na camisola, naquilo que representa como passado coletivo e símbolo de milhões de portugueses, que está o segredo para se ser melhor. Não há nenhum treinador que se possa substituir a ela. Sem ela, todos são muito pequenos, mais pequenos do que os pequenos que a vestem porque querem ser tão grandes como os maiores.


(Não tenho razões para duvidar do compromisso dos jogadores para com a camisola que vestem. Se assim não fosse, não teriam obtido vitórias épicas quando as táticas tinham ido para o galheiro e só esse compromisso os podia ainda fazer acreditar. Temos um treinador que se acha maior do que a camisola. É tão, mas tão pequeno que nem chega a perceber o pequeno que é quando olha para a camisola que os seus jogadores vestem)

domingo, 1 de abril de 2018

Palavras para quê?

Não nos damos bem com o descanso. Não é que tenhamos jogado pior do que quando andávamos a jogar de três em três dias. Só que havia desculpa. A equipa jogava mal, mas os jogadores na sua cabeça sempre tinham essa desculpa: o cansaço. A necessidade de superação permanente e as vitórias épicas quando parecia que os sinos dobravam por nós, geravam alguma crença nos jogadores. Com descanso, a equipa continua cansada de não ter ideias, cansada de jogar mal e tudo isso cansa mais do que o cansaço.

Não começámos mal. Pressionámos alto, condicionámos a saída de bola do Braga mas, pouco a pouco, as forças começam sempre a faltar. É nos pequenos detalhes que se começa a ver o cansaço, a bola que se domina mal, o ressalto que se perde, o passe adiantado. De repente, o meio-campo fica perdido, dado que está sempre em inferioridade numérica e mais fica quando se tem a mosca morta do Bryan Ruiz a jogar em “souplesse” a defender e a atacar. Falta intensidade, como agora é moda dizer-se.

Quando qualquer equipa nos começa a empurrar para trás as dificuldades de se chegar à frente multiplicam-se. O Bas Dost fica como polícia-sinaleiro na frente. O Gelson Martins encosta ao lado direito e apoia tanto a defender, para o Piccini encostar mais dentro, que fica cada vez mais longe da frente e se desgasta ainda mais nas sucessivas investidas que tenta. O Acuña passa a preocupar-se quase exclusivamente a fechar o seu lado também. Ficamos à espera que o Bruno Fernandes tire os coelhos da cartola que forem necessários até que num milagre se chegue ao golo.

Por volta da meia-hora, o Braga tinha tomado conta do jogo, embora sem saber bem o que fazer à bola. Como não criavam oportunidades, decidimos criá-las por eles: o Mathieu atrapalhou-se com o Patrício e deixou o Wilson Eduardo com a baliza aberta e, logo a seguir, perante a incompetência do adversário, resolveu enfiar a bola na sua própria baliza. O árbitro e o vídeo-árbitro resolveram embaralharar-se e anularam o golo sem se perceber razão para isso.

Fomos para o intervalo e respirar por uma palhinha e voltámos na mesma. O Braga queria mas não sabia. Nós, simplesmente não podíamos. Tanto não podíamos que o melhor que o Jorge Jesus arranjou foi meter, primeiro, o Rúben Ribeiro no lugar do Acuña e, depois, o Montero no lugar do moribundo Bryan Ruiz. Sublinha-se a sagacidade do treinador tanto nas substituições como nas escolhas no mercado de Inverno. Precisamos sempre de mais e mais jogadores e nunca chegam, como se viu com estes dois emplastros. Preparávamo-nos para nos arrastar até ao final sem honra nem glória ou à espera de um milagre nos descontos. Desta vez correu mal. A equipa saiu para o contra-ataque, perdeu a bola, ficou descompensada, o Piccini tentou evitar o pior, não evitou e ainda arranjou maneira de nos suicidarmos.

A jogar com dez, o Jorge Jesus, ficou sem saber o que fazer e deixou a equipa à deriva durante cerca de dez minutos. Quando ia meter o Ristovski, levámos um golo de bola parada: não ganhámos a bola ao primeiro poste, não ganhámos ao segundo e a bola entrou no meio para onde se tinha desmarcado um central matulão do Braga. Já não entrou o Ristovski e entrou o Wendel, o tal que só vinha aprender para a próxima época, mas a quem, pelos vistos, lhe queriam dar a responsabilidade de ainda procurar salvar esta em quatro minutos. Palavras para quê? As desculpas seguem dentro de momentos e, como sempre, a necessidade de contratar mais jogadores, dado que o génio da tática, como o outro da economia, nunca se engana e raramente tem dúvidas.

terça-feira, 27 de março de 2018

No panic!

Não há qualquer possibilidade de jogarmos contra a Holanda na fase final do Campeonato do Mundo, na Rússia. Se assim não fosse, não tenho dúvidas que tudo seria diferente. Vamos empatar esse Mundial, empatando ou ganhando nos descontos, no prolongamento ou nos “penalties”. Não há, assim, razões para alarme.

O Fernando Santos testou dois esquemas táticos radicalmente distintos na primeira e na segunda parte: jogar com dez, contando com o André Gomes, ou jogar com dez, não contando com o André Gomes. Se não fossem os três golos sofridos, os resultados destas alternativas seriam razoavelmente indistintos.

terça-feira, 20 de março de 2018

Só temos medo que o céu nos caia em cima da cabeça, mais nada...


A coisa boa (temos sempre que encontrar uma) dos últimos meses a ver jogos do Sporting é que tem bastado ligar a TV (ou entrar no estádio) perto do jogo acabar para se ter um desenlace (quase sempre) perfeito. Enquanto os outros (leia-se outras equipas que lutam pelo título) tratam da sua vidinha durante a semana, de diversas e criativas maneiras, nós temos que jogar os jogos todos do princípio ao fim, e ainda somos criticados por marcar nos descontos desses mesmos jogos, como se os descontos fossem uma invenção com patente registada sportinguista.

Ora, neste último jogo, ganho com dois golos (um deles ainda na primeira parte) marcados durante os noventa minutos, falhados foram mais quatro ou cinco, nem isso terá desmotivado os ecos dos cartilhados (entre outros) do costume. Parece que o Rio-Ave queria sair sempre a jogar, defendendo alto mas sem pressionar muito, não explorando as costas e as deficiências da nossa defesa, acabando por perder, supostamente, por inoperância ou incapacidade próprias, como se jogar em Alvalade fosse empresa fácil, acessível aos bons alunos com trabalho de casa feito. Os ecos são devidamente alardeados pela propaganda. Afinal se ganhámos é porque os jogos se estendem, se não ganhámos, evidentemente, somos a equipa do quase, e é assim que deve ser, para regozijo de todos aqueles que nos dão palmadinhas nas costas.

Começo a acreditar que o ideiafix Jesus, não tendo lugar na nossa versão do livro de Asterix, ficaria mesmo a calhar (e com resultados) mais a norte, como, aliás, o provou, na sua versão gaulesa nossa vizinha da segunda circular. Nada disto (ou pouco) estará relacionado com ideias, ou a sua ideia, mas apenas como resultado da pena de um qualquer Goscinny de serviço com a colaboração dos desenhos de Uderzo feitos sob coacção. Talvez enviados por email. Não sabemos. O que sabemos é que estamos em todas as aventuras deste ano. Não é pouco. O caminho para um pacemaker faz-se caminhando. 

segunda-feira, 19 de março de 2018

Fadiga do “blogger”

Sinto-me o Bruno Fernandes, a correr que nem um desalmado de três em três dias. Não há rotatividade no blogue e se fisicamente não me estou a ressentir, emocionalmente estou de rastos. Há dias, num seminário onde se tratava o tema da governação de políticas públicas, alguém falou de fadiga institucional. Não sofro de fadiga institucional mas de fadiga do Sporting. Ainda bem que vai entrar em ação o Fernando Santos!

Neste jogo, decidimos finalmente fazer pressão alta e impedir a saída da bola do Rio Ave, condicionando assim o jogo do adversário. O Rui Costa, por sua vez, condicionou o nosso condicionamento, encontrando umas falta aqui e ali em situações duvidosas e demorando sempre tanto a apitar que se fica na dúvida se não chega a demorar mais tempo que o próprio vídeo-árbitro. Sempre que o Rui Costa não nos condicionou, nós condicionámo-nos sem ajuda de ninguém, falhando golos atrás de golos. Embora não se disponha do Slimani, não se percebe a razão de não se fazer este tipo de pressão com as sucessivas equipas de pernetas que vêm jogar a Alvalade, sobretudo quando se joga com o Bruno Fernandes, o Battaglia e o William Carvalho no meio-campo.

Tanta tática e depois os golos acontecem pela pura e simples inteligência dos jogadores. No primeiro, o Piccini, como jogador italiano que se preza, aproveitou um lançamento lateral para apanhar os passarinhos da defesa do Rio Ave com as calças na mão. O Bruno Fernandes meteu de primeira para o Bas Dost que, de primeira também, deixou de calcanhar para o Gelson Martins. O Gelson Martis complicou tanto, mas tanto, que não só surpreendeu os defesas como o guarda-redes, colocando a bola cruzada junto ao poste, quando estava à espera que passasse para o lado ou voltasse para trás, como habitualmente. No segundo, o Coates taticamente fez tudo mal. Recuperou a bola, passou-a ao Acuña, desmarcou-se para a área e, ao entrar ao primeiro poste, obrigou um central a procurar marcá-lo, deixando o Bas Dost solto para receber o centro do Gelson Martins e a meter na baliza. Jogar com um avançado é uma forma de dar descanso a este tipo de defesas que joga mais recuado. Enquanto continuamos à procura do Téo perdido, vão-nos salvando estas desobediências do Coates.

Acabei este último parágrafo com os bofes de fora. Está tão comprido que ficamos sem ar ao lê-lo e muito mais a escrevê-lo. Parecia o Bruno Fernandes isolado e de frente para o Cássio a rematar ao poste. Voltamos ver-nos no próximo dia 30, contra o Braga. Continuamos a lutar em todas as frentes e por todos os títulos, como se vai dizendo até um dia se deixar de dizer.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Se é para ser assim, com o Paulo Bento fica mais barato

Ontem, contra o Viktoria Plzeň, aconteceu exactamente aquilo que o Jorge Jesus anunciou na conferência de imprensa: a equipa jogou em função dos pontos fortes do adversário, esquecendo-se dos seus pontos fracos e, sobretudo, dos seus próprios pontos fortes. Depois de se contratarem duzentos e cinquenta e oito defesas esquerdos e direitos, decidiu apostar novamente no David Luiz, isto é, no Battaglia a defesa direito, deixando dois defesas direitos no banco. Estando castigado o William Carvalho, meteu o Petrović na sua posição. É possível ganhar jogos apostando em jogar com dez. O Jorge Jesus tem provado essa possibilidade, sempre que mete umas tantas moscas mortas. Apesar de tudo, tem o cuidado de as meter na frente. Não é possível ganhar a jogar sem o guarda-redes, um dos centrais ou o trinco.

A táctica caiu por terra mal começou o jogo. Tanta preocupação com o jogo aéreo e as bolas paradas para se sofrer um golo na primeira cabeçada do adversário. Os veteranos das noites europeias leoninas antecipam uma sequela mal vêem o início do filme. Os falhanços do Bryan Ruiz e do Acuña foram as cenas seguintes, até se chegar ao segundo golo, com o meio-campo a acompanhar com os olhos a desmarcação de um adversário que centrou atrasado para remate de primeira, apanhando em contrapé o Rui Patrício. Foi necessário chegar-se a esta situação para o Jorge Jesus perceber que, embora também tenha quatro patas, um gato não é um cão ou, por outras palavras, um trinco é um trinco e um defesa direito é um defesa direito. Com a entrada do Piccini e, sobretudo, com o Battaglia a trinco a música passou a ser outra. A partir desse momento, não se deram mais abébias no meio-campo e o Sporting a custo foi empurrando o adversário para a sua área. Mas o clímax ficou guardado para os descontos, quando o Bas Dost falhou um “penalty”.

Quando se passa o que se passou, percebe-se que a eliminatória só pode ser ultrapassada com o coração, com a vontade, servindo de pouco as tácticas e as berrarias do treinador. Nestes momentos (da verdade), olha-se para dentro do campo e para a cara dos jogadores e tenta-se perceber quais deles têm dentro de si esse coração e essa vontade. Não havia muitos. Contei três: Montero, Coentrão e Battaglia. Esperava que fosse o Montero, pela sua posição no ataque, mas acabou por ser o Battaglia, a desviar de cabeça a bola para a baliza na sequência de um canto. Naquela altura, talvez fosse o único que ainda tivesse a força e o ânimo necessários para fazer aquele movimento com convicção. A partir daí, procurámos recuar e defender e não mais conseguimos controlar o jogo. Como sempre, nunca conseguimos controlar os jogos sem bola, valendo-nos o Rui Patrício e a descrença e cansaço dos adversários.

Tropeçámos mas não caímos. Desde Janeiro tem sido assim ou pior. Tropeçamos sempre mas nem sempre caímos (com excepção dos jogos contra o Estoril e o Porto). Os tropeções são directamente proporcionais à bazófia do Jorge Jesus. Houve um tempo em que, ironizando, ainda tentava encontrar alguma graça naquele ego do tamanho de um Antonov. Sem vento, os tropeções foram culpa agora do estado do relvado, do André Pinto e do Petrović. O treinador é único: reconhecido mundialmente por ter chegado a duas finais da Taça UEFA. Assim de cabeça, lembro-me de uma final com o Pesero e de uma meia-final com o Sá Pinto. Se me lembrar então que com o Paulo Bento disputámos quatro campeonatos até ao fim, ganhámos duas Taças de Portugal e duas Supertaças e conseguimos o apuramento para os oitavos de final da Liga dos Campeões, contando com jogadores como o Polga, o Carriço, o Abel, o Pedro Silva, o Grimi, o Miguel Veloso, o Custódio, o Tiuí, o Djaló, o Bueno, o Farnerud, ou o Ronny, começo a ter saudades.

quinta-feira, 15 de março de 2018

quarta-feira, 14 de março de 2018

À atenção do Gabinete de Crise

O facto de o Benfica ter obtido zero pontos na Liga dos Campeões, perdendo com colossos do futebol mundial como o Basileia ou o CSKA e sofrendo quinze golos e marcando apenas um, pode ser considerado uma paródia?

terça-feira, 13 de março de 2018

Bas Dost, chutar a pensar e pensar em chutar

Não dispomos de uma estratégia de jogo. Dispomos, isso sim, de uma estratégia de sobrevivência. Sempre que possível, jogam os bons. Na sua ausência, jogam os assim-assim. Quando nem os assim-assim conseguem jogar, jogam os que nem assim-assim são. Depois do Coentrão e do Acuña, o Bruno César deixou-nos hoje, paz à sua alma, e entrou o Lumor. O Piccini não recuperou e o Ristovsky está com as costas empanadas, tendo de jogar o Battaglia. Não jogando o Battaglia e o Bruno Fernandes no meio-campo, entrou o Misic. O Montero jogou na frente apoiado pelo Bryan Ruiz, a fazer de Bruno Fernandes, e o Rúben Ribeiro encostou à direita a fazer de Acuña ou de Bryan Ruiz. Os resultados não parecem muito diferentes e as exibições também não.

Os bons, os assim-assim e os que nem assim-assim são, depois de uma lavagem ao cérebro de Jorge Jesus, começam a ficar todos iguais e a forma coletiva de jogar é muito semelhante, joguem uns ou outros. A bola é passada e repassada até chegar ao Gelson Martins. Nessa altura, o jogo acelera e o rapaz desembesta como se não houvesse amanhã até passar a bola a um colega de equipa. Esse colega pára para pensar e, quase sempre, decide que a jogada deve recomeçar, porque sim ou porque perdeu oportunidade. A primeira parte foi isto e mais o Nuno André Coelho que ainda nos quis fazer o favor de deixar em jogo, num primeiro momento, o Montero e, num segundo, o Gelson Martins. O Montero parou para pensar e não chutou, o Gelson Martins chutou sem pensar. Mesmo que o resultado seja o mesmo, prefiro os jogadores que chutam e não pensam aos que pensam e não chutam.

Só depois de entrar o Bas Dost quase e meio da segunda parte é que passámos a dispor de uma avançado que chuta e pensa de forma articulada no tempo. Na primeira oportunidade, depois de um cruzamento do Battaglia tirou as medidas à baliza. Na segunda, ainda antes de o Rúben Ribeiro saber o que ia fazer já ele o sabia e desmarcou-se para a encostar ao segundo poste no meio de três adversários. Na terceira, o Battaglia fez de Slimani e só precisou de fazer um passe para a baliza. O Chaves esteve sempre na expetativa até se ver a perder. Carregou na parte final do jogo e nós tivemos as dificuldades habituais de controlar o jogo com posse de bola. Levámos com o “penalty” da ordem. Há mais fita do que falta, mas o Coates não precisava de ter metido o braço. Como o jogo acabou pouco depois, de certa forma até se pode afirmar que ganhámos folgadamente.

Acabada esta jornada, importa enterrar os mortos e tratar dos feridos que quinta-feira há mais. Os que se conseguirem deslocar pelos seus próprios meios, embarcam para Plzeň. Pelas minhas contas, ainda temos onze para esse jogo. Os que sobreviverem regressam de imediato e se algum dos feridos se recompuser pode ser que se arranjem onze jogadores outra vez para se jogar no domingo contra o Rio Ave. Pelos vistos não se podem adiar jogos sempre que a seleção se pretenda preparar para uma peladinha qualquer.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Uma ideia clinicamente possível

O Viktoria Plzeň entrou desconfiado. Tinham ouvido falar da ideia de jogo do Jorge Jesus e suspeitaram o pior, em particular quando viram o Montero a ponta-de-lança. Só como ideia se imagina o Montero sozinho na frente. Mas a ideia era mesmo essa, fazer crer que se tem uma ideia e, depois, jogar com aqueles que ainda não faleceram como se isso decorresse dessa ideia e não de uma fatalidade.

Demoraram cerca de sessenta minutos a perceber a ideia e só a perceberam quando viram que mesmo os que não tinham falecido também não estavam com boa cara. Começaram a pensar que correr, atacar e meter os maiores que tinham na frente podia ser uma boa ideia. Pelo menos, uma ideia melhor do que a de continuarem a assistir ao autêntico recital de futebol do Bruno Fernandes. A ideia foi boa e só não deu em golos por alguma falta de jeito. Devem estar a pensar por que razão esta ideia não lhe veio à cabeça mais cedo, pois, até chegarem a esta ideia, tivemos tempo para marcar dois golos.

No primeiro, o Coentrão ganhou a bola e correu com as forças que tinha até ao ataque sem que ninguém se desmarcasse para lado algum. Não desanimou e passou a bola ao Bryan Ruiz, que estava parado, e desmarcou-se ele próprio para dentro da área, contrariando a movimentação habitual do Zeegelaar de se embrulhar em meio metro quadrado com o Bryan Ruiz e que tantas saudades nos deixou. O Bryan Ruiz, que parado consegue sempre os seus melhores momentos, picou a bola por cima de uma adversário para a devolver ao Coentrão que, mesmo correndo o risco de se desatarraxar todo, meteu de primeira para o meio, apanhando o Montero parado. Estando parado, o sangue de barata que lhe corre nas veias permite-lhe marcar golos com a frieza de um veterano italiano.

No segundo, o Bruno Fernandes recupera uma bola na zona frontal, avança com ela e passa-a ao Montero, esperando a tabelinha mais à frente para ficar cara-a-cara com o guarda-redes e marcar golo. O Montero, com o ego em alta, resolveu fazer tudo mal e tão mal foi fazendo que, às páginas tantas, não lhe restava outra alternativa que não fosse desfazer-se da bola a qualquer preço. O sangue de barata ou a sorte permitiu-lhe um passe para a baliza meio de bico, metendo a bola junto ao poste. O Bruno Fernandes, que estava preparado para lhe ralhar, acabou por perdoar tudo, com a promessa de nunca mais voltar a fazer uma coisa como aquela.

Os jogadores do Viktoria Plzeň com esse segundo golos tiveram a epifania que descrevi e desataram a tentar marcar golos. A cada investida, a defesa ia cedendo mais um pouco, valendo-nos o cabedal do Coates e o nervo do Mathieu e do Coentrão. Pedia-se aquilo que autores clássicos como o Alves dos Santos ou o Gabriel Alves conceptualizaram como o refrescamento da equipa. O Acuña foi o primeiro a sair. Foi uma opção lúcida do Jorge Jesus: como não pode jogar contra o Chaves, nada melhor do que o poupar. Depois ficou a dúvida se não queria tirar antes o Coentrão quando o substituiu mais tarde pelo Rúben Ribeiro. A coisa estava a ficar tão feia que até a entrada do Rúben Ribeiro constituiu um refrescamento. Aguentámos até ao fim e podíamos mesmo ter marcado um golo quando o Mathieu sprintou quase o campo todo para morrer ao pé da praia. Se o Varandas conseguir apanhar as pulsações a onze jogadores, pode ser que na República Checa se resolva o problema.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Sem desculpa(s)

Hoje, um amigo meu, portista, jurou-me a pé juntos que o Diogo Dalot nem tocou no Doumbia. Admiti que um adepto só considera que existe “penalty” contra a sua equipa quando o jogador adversário, vítima de qualquer falta, acabe por morrer dentro da área. Admiti também que um adepto considera que existe “penalty” a favor da sua equipa sempre que não se remate com êxito à baliza, bastando para tal a simples intenção dos jogadores adversário se mexerem dentro da área provocando deslocação de ar. Enfim, disse-lhe que os amigos não discutem arbitragens, sob o risco de o deixarem de ser.

O problema não é o que cada um de nós, portistas ou sportinguistas, pensa que aconteceu, mesmo tendo visto a mesma coisa. O problema é o que pensa o árbitro e a coerência desse pensamento durante o jogo e ao longo de vários jogos. Contra o Feirense, o vídeo-árbitro viu, mal, uma falta que supostamente antecedeu o passe para o Doumbia e o respetivo golo, tendo o árbitro validado essa indicação. Contra o Moreirense o quarto árbitro viu uma falta do Petrovic que ninguém viu, incluindo o árbitro, tendo, mesmo assim, validado essa indicação. Contra o Porto, o vídeo-árbitro viu o “penalty” a favor do Sporting, não tendo o árbitro validado essa indicação. Só existe uma coerência possível: os árbitros validam ou não validam as indicações dos seus auxiliares, sejam eles o quarto árbitro ou o vídeo-árbitro, em função das cores das camisolas nos jogos do Sporting.

É por estas e por outras que vou desculpando as sucessivas direções e treinadores do Sporting, não fugindo o Jorge Jesus a esse permanente exercício de contemporização. O Jorge Jesus não nasceu ontem e sabe tudo isto melhor do que qualquer um de nós, mas quase nunca o denuncia, afirmando sempre a sua capacidade para, por si só, levar o Sporting ao título nacional desde que lhe satisfaçam aquelas que ele considera ser as suas necessidades. Por isso, o julgamento sobre o trabalho do Jorge Jesus tem de ser feito nos exatos termos que ele próprio definiu. Três anos depois, não conseguiu o título nacional e só numa época o disputou até ao fim. Ou é ele o culpado ou então é culpado quem não lhe satisfez as necessidades.

(Disse a esse amigo meu que, como passavam a estar em confronto direto exclusivamente com o Benfica, os dados iam ser lançados outra vez. Tinham a experiência do jogo do Dragão, para amostra. Embora sendo um problema deles que nada me diz respeito, disse-lhe que me evitasse nova choradeira quando fossem à Luz ou quando se atravessasse no caminho um Artur Soares Dias qualquer)

sábado, 3 de março de 2018

Decisões certas sem ordem certa

O futebol é mesmo assim: ganha quem marca mais. Não nos podemos queixar a não ser de nós próprios. Falhar um “penalty” aos quinze minutos e sofrer dois golos a jogar contra dez jogadores do Porto o resto do tempo são coisas que não se explicam e muito menos se perdoam. Não se aceitam desculpas da arbitragem: umas vezes o árbitro, outras o vídeo-árbitro e outras ainda o quarto árbitro acertam, só não acertam pela ordem certa.

Esta parte final do campeonato tem vários motivos de interesse. Enquanto o Sporting estava na luta pelo campeonato, o Benfica jogava contra dois candidatos. Agora fica o que enviou os emails e o que tem esses emails, embora este imbróglio esteja razoavelmente abafado. Sem emails e sem o Sporting, como é que vai ser agora? Ganha quem jogar melhor?

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Arbitragem no Red Light District

Estava tudo preparado para perder o Sporting contra o Moreirense. Fim-de-semana prolongado com a família em Amsterdão. Programa turístico-cultural devidamente estudado e sem falhas: Museu Van Gogh, Museu Rijks, Casa de Anne Frank, Heineken Experience, Museu Casa de Rembrandt, Red Light District. Fins de tarde em “coffe shops” (recomenda-se o Bar Bukowski pela “playlist”), passeio de barco para visitar os canais e muita “street food” à base de batatas fritas besuntadas. Na segunda-feira à noite, no regresso ao Airbnb, o cansaço era muito e ninguém estava com grande vontade de voltar a sair para jantar. Excelente oportunidade para apelar ao “streaming” do Inácio e procurar ver o jogo da melhor maneira possível.

Fiquei a saber que metade da equipa tinha sido dizimada por um surto gripal. Sobraram muitos daqueles que de tão lentos que são que até a própria gripe incuba com lentidão. Entrámos como de costume, a ver o que o jogo dá, em vez de cairmos em cima deles, como eles esperam, desde os primeiros minutos. Na primeira meia-hora praticamente não se criou uma oportunidade de golo, tendo-se assistido a um arraial de pancadaria da rapaziada do Moreirense perante o olhar distraído e contemporizador do árbitro. No último quarto de hora criámos três oportunidades claras de golo. O Bryan Ruiz, isolado, estatelou-se e passou a bola ao guarda-redes. A seguir fez um passe magnífico para o Bruno Fernandes ficar cara-a-cara com o guarda-redes e rematar por cima. Acabando este período com um centro perfeito para o André Pinto cabecear ao lado.

A segunda parte começou por não prometer grande coisa. O árbitro continuou a dizer ao que vinha, precisando de recorrer ao vídeo-árbitro para anular bem um golo do Moreirense (se somos roubado com vídeo-árbitro imagine-se como seria sem ele). O Rui Patrício fez uma defesa impossível (depois de um cabeceamento quase à queima a conseguiu ir buscar a bola quase ao chão e ainda ter força para a desviar pela linha de fundo). Esperava-se que a entrada do Rafael Leão pudesse mexer com o jogo. Não deu para ver. Quase a seguir, o árbitro inventou a expulsão do Petrovic. A partir desse lance deixei de conseguir ver o jogo. O “streaming” em vez de futebol começou a passar imagens de umas senhoras selectivamente avantajadas. É verdade que a arbitragem foi pura e simples pornografia. Mas não era precisa tanta depois de se passar uma tarde no Red Light District.

Soube do golo do Gelson Martins e do resultado bem depois de terminar o jogo. Não se percebe a razão para tanto estudo e tanta táctica quando se acaba sempre em modo de desespero à biqueirada para a frente e com muita fé no Coates. Valeu-nos a irreverência e a autoconfiança do miúdo Rafael Leão  quando se esgotavam os últimos minutos dos descontos. Começou por ganhar a bola de carrinho a um adversário, embalou com ela, passando por outro adversário ao desviá-lo do caminho com um toque de calcanhar, protegeu-a, aguentando a carga de mais outro adversário, até a entregar com conta, peso e medida, como diria o Gabriel Alves, ao Gelson Martins. O Gelson Martins arrefinfou-lhe uma trivela chocha que, às três tabelas, acabou na baliza do Moreirense, permitindo-lhe assim dedicar o golo ao Rúben Semedo e descansar no próximo jogo contra o Porto.

Resultados obtidos nestas circunstâncias costumam moralizar as equipas. No nosso caso, não sei dizer. Deixámos que o Setúbal empatasse no último minuto. Ganhámos a Taça da Liga depois de vencermos os dois jogos no último “penalty”. Ganhámos ao Tondela no último remate. Deixámos que o Astana empatasse no último remate também. Esta sequência de resultados não nos dá grandes pistas para o jogo do Porto. Talvez nos dê uma única: vai-se sofrer até ao último minuto, ganhando, perdendo ou empatando.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Jogos, crimes e sobreviventes

Há certos jogos que são como certos crimes: não compensam. Não dão para o gasto, como dizia a minha avó. O jogo contra o Astana foi um destes. A eliminatória ficou decidida no Cazaquistão. A UEFA obriga a que se joguem dois jogos e não há nada a fazer. Tiveram que vir de tão longe os senhores para nada. Não foi bem para nada, foi mais para se fazer um jogo-treino.

Para jogo-treino não se percebe a participação do Bruno Fernandes ou do Bas Dost. A equipa do Sporting parece encontrar-se num daqueles filmes americanos de catástrofes em que um grupo se vai desfazendo, caindo um atrás de outro até ficar o último(a) que sobrevive para contar a história (e que depois casa com a Scarlett Johansson ou com o Robert Pattinson). Neste caso, parece que vai sobreviver o do costume: o Jesus, nem que para isso tenha de ressuscitar ao terceiro dia.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Relojoaria e futebol com Freud à mistura

O tempo de compensação no jogo do Sporting contra o Tondela deu origem a algumas das discussões mais bizantinas que me foi dado assistir. A discussão foi efetuada sobretudo pelo Benfica, institucionalmente, e pelos benfiquistas. Esta discussão é reveladora de má consciência. Os benfiquistas projetam os seus próprios pensamentos, motivações, desejos e sentimentos indesejáveis nos adeptos de outros clubes e, neste caso, do Sporting. Fiquei a saber pela “Wikipédia”, que se trata de um mecanismo de defesa psicológico, mantendo inconscientes pensamentos, motivações, desejos e sentimentos indesejáveis aos torná-los conscientes nos outros pela sua projeção. Chama-se a isto Projeção Freudiana.

Quando o árbitro prolonga o tempo para além dos quatro minutos habituais, os benfiquistas sabem que mais não visa do que criar condições para que o Benfica ainda possa ganhar um jogo ou, pelo menos, não o perder. Sabem-no por experiência própria ao longo dos anos e neste ano em particular, no jogo contra o Belenenses. Sabem-no, mas não o querem admitir. Não lhes passa pela cabeça que o Capela tenha prolongado o tempo de jogo na expetativa de o Sporting o vir a perder. Esteve mais perto de acontecer do que aquilo que verdadeiramente aconteceu. Esta é a minha Projeção Freudiana: ninguém me tira da cabeça que era esta a intenção do Capela. Limpinho, limpinho!

(Prolongar o jogo uns minutos dá para marcar um golo. Por umas semanas dá para marcar três. Limpinho, limpinho!)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Match point


“Deviam ter vergonha”. Recebi qualquer coisa assim através do whatsapp. Essa e outras frases vinham embaladas (como tudo hoje em dia) em imagens. Imagens com análises, regras de arbitragem, piadas secas ao sol da Nazaré, etc. Mas todas com um denominador comum: a vitória do Sporting com um golo do Coates nos descontos (ou Bruno de Carvalho com um bigodinho). Percebi, mais uma vez, aquilo que já havia dito por aqui: o Sporting (quando) deixou de ser um clube simpático, e (re)começou a intrometer-se na luta pelos títulos, pelas receitas, a mexer-se nos corredores mofentos do poder da bola, passou a ser um incómodo, primeiro causando apenas algum prurido, depois elevando as comichões ao nível das chagas pestíferas que não se podem espalhar, e que se devem combater como uma verdadeira doença. Exagero para que percebamos o que está em causa: poder (e tudo o resto acoplado).

Compreende-se nos muito jovens, ou nos peixes, mas em todos os outros, a ausência de memória (mesmo recente), não se devendo a doença, é coisa muito estranha, devidamente assinalada nos anais da sabedoria popular: casa de ferreiro espeto de pau; olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço; com papas e bolos se enganam os tolos; depois de fartos, não faltam pratos;

Ou para baixo todos os santos ajudam. Se ajudam. Recordam-se, os Sportinguistas, do 7º lugar no consulado de Godinho? Eu recordo bem umas palavras do Papa, perdão, de Pinto da Costa, que, de forma condescendente e paternalista, afirmava o seu apoio a Godinho, acrescentando que o futebol português precisava de um Sporting forte. Claro que sim. Claro que sim. Estávamos próximo do abismo e as pancadinhas nas costas soavam a finados.

As virgens ofendidas desta semana (onde se incluem alguns brafiquistas), os moralistas que bradam pelos bons costumes e peroram (gosto desta palavra) sobre liberdade de imprensa, entre outras divagações que confrangem (neste momento) o meu desempenho mental, fazem o costume em situações desta natureza: berram alto enquanto varrem o seu próprio lixo para debaixo do tapete que, por sua vez está debaixo do sofá, bem escondido, junto ao armário dos esqueletos.

Ninguém se lembra, assim de repente, do guarda Abel, do túnel das antas e seus sucedâneos, o túnel do Braguinha, depois túnel brafiquista, ou do túnel da Luz?, para não nos alongarmos mais em subterrâneos. Ninguém se lembra da fruta, do calor da noite, das reuniõezinhas em casa do presidente, das escutas, da porrada aos jornalistas, do boicote às televisões ( e aquele famoso ataque à SIC ali à Boavista?), do só queremos Lisboa a arder, blá blá blá? Ninguém se lembra de um presidente (eu ajudo – chamava-se Vieira) a invadir um estúdio de televisão, o mesmo presidente que fora sócio (ainda será?) de todos os clubes possíveis e imaginários, desde que lhe permitissem subir a pulso para perto da fruteira, de quem era (nessa altura) amigo? Houve um filme, patrocinado, sobre a fruta, não se lembram? De perseguições a árbitros não vale a pena falar, estão registadas pelas paredes (e nas mentes) dos próprios. Mas, será que ninguém se recorda do boicote ao leite Parmalat? Intervalo.

Com as substituições, vieram os vouchers (os outros tinham a agência Cosmos, recordam-se?), os emails, a cartilha, os padres, as freiras. Substitui-se o dourado do apito, pela batina. Um papa pelo outro. Cada um com a sua guarda de honra, subordinados, beija-mão, comentadores independentes, tudo à volta da gamela. Mas uma gamela devidamente institucionalizada. E a farpela, neste país, é tudo.

Dentro das (como se diz) quatro linhas, já se sabe. Ninguém se recorda daqueles famosos envolvimentos aos árbitros, de jogos como o de Campo Maior, ou, mais recentemente, dos minutos de compensação no Restelo, onde o Belenenses quase se surpreendia a si próprio. Ninguém se recorda da mão de Vata, nem interessa.

Nota 1: Tenho pena que as directrizes de Bruno de Carvalho não tenham chegado aos blogues. Como não sou comentador (dos encartados televisivos), não compro jornais, nem assisto aos ditos programas de entretenimento futeboleiro, fico sem vontade de fazer um daqueles gestos que caracterizam o Zé Povinho. Fica o desafio.

Nota 2: o Porto acaba de ganhar ao Estoril. Já ninguém se lembra dos tais descontos, nem se falará do primeiro golo do porto. Limpinho, claro.